Gestão de riscos em laboratórios clínicos no Brasil

March 12, 2020

Introdução

A gestão do risco começa com sua identificação e avaliação (DAMODARAN, 1). Os laboratórios são do ponto de vista de seus proprietários, em essência, uma alternativa de investimento de risco (SANTOS, 2), portanto, avaliar o maior risco que é o da insolvência constitui, no mínimo, uma atitude preventiva fundamental para não só preservar o valor investido, como para buscar o devido retorno esperado (PIMENTEL, ALEX, 6). A avaliação do risco de insolvência e a classificação dos laboratórios em escalas de níveis de risco visam auxiliar os gestores das organizações a tomarem decisões com maior nível de informações qualificadas, aprimorando as vantagens estratégicas (DAMODARAN, 1). A identificação das causas raízes que podem levar a insolvência deve proporcionar aos executivos os fundamentos para estabelecer um plano de ações visando o controle do risco (OLIVEIRA, ERNANI TADEU, 7). Mas só um plano não resolve, é necessário implantar e monitorar os resultados, corrigindo eventuais desvios. O objetivo final esta acima da luta pela sobrevivência da empresa, a meta é torná-la mais competitiva, assegurando lucratividade para os acionistas. Risco, por definição, é a possibilidade de perda decorrente de um determinado evento. Representa o grau de incerteza em relação à possibilidade do evento, o que, em caso afirmativo, redundará em prejuízos (SANTOS, 2). A perda para os laboratórios significa prejuízo, lucro menor ou redução de ativos. As variáveis produção/vendas, receitas e custos são determinantes para estabelecer o risco de insolvência (BRUNI, ADRIANO LEAL; FAMÁ, RUBENS, 5). Neste estudo, que envolveu laboratórios de diversas regiões do País durante um período de cinco anos e três meses, foi utilizada uma ferramenta basilar para viabilizar a pesquisa. Esta ferramenta executa o cálculo dos custos (SANTOS, JOEL JOSÉ DOS, 4) e analisa a rentabilidade dos laboratórios clínicos, detalhando a rentabilidade individual de parâmetros/exames, clientes/convênios, equipamentos e setores/áreas dos laboratórios. Ainda, testa em tempo real tabelas de preços de exames e compara de forma dinâmica tabelas de preços entre clientes. Finalmente, calcula o desempenho geral da organização através de dezenas de indicadores, determina o ponto de equilíbrio e fornece subsídios para o planejamento orçamentário e análise de negócios (DA COSTA FILHO, DA COSTA, 3). Isto permite a padronização da coleta de dados, tornando os resultados comparáveis entre si. As variáveis produção/vendas, receitas, custos e margem operacional são informações chaves em simulações utilizadas para examinar os efeitos de riscos contínuos (DAMODARAN, 1), e foram empregadas no presente estudo, através dos conceitos contidos nos indicadores de desempenho que constituem o critério para avaliar o risco de insolvência. Estes indicadores são a margem de segurança percentual, a margem líquida de lucro (regime de caixa) em relação à produção e o número de dias para atingir o ponto de equilíbrio financeiro (ROSA, NEWTON BRAGA, 8). Os cálculos destes indicadores levam em conta as seguintes variáveis: Número de exames realizados, valor/preço dos exames, produção, receitas à vista e faturada, custos fixos e variáveis, inadimplência e receita recebida (DA COSTA FILHO, DA COSTA, 3). Portanto, o critério estabelecido para avaliar o risco de insolvência através deste conjunto de indicadores, tem a capacidade de atingir diversas dimensões do negócio dos laboratórios clínicos, quais sejam: Volume do mercado (número de exames), qualidade do mercado (valor/preço dos exames), eficiência do parque produtivo (custo unitário variável dos exames), controle dos custos fixos (produtividade dos custos fixos) e relação receita produzida x receita recebida (inadimplência, glosas, eficiência do faturamento e prazo médio) (SCHMIDT, PAULO; SANTOS, JOSÉ LUIZ DOS; MARTINS, MARCO ANTONIO, 9). Concluindo, a efetiva gestão do risco diz mais respeito às escolhas estratégicas do que às escolhas na esfera financeira e vê o risco não só como um perigo, mas também como uma oportunidade (DAMODARAN, 1). Esta é a essência do propósito deste estudo.

Material e Métodos

As atividades de pesquisa foram desenvolvidas em laboratórios de análises clínicas totalizando 31 eventos. Estes laboratórios estão localizados e distribuídos no País da seguinte forma: Região sul com 60,87% e nas regiões sudeste, nordeste e centro-oeste 13,04% em cada uma. O período de abrangência do estudo varia de janeiro de 2006 a março de 2011. Em cada laboratório foi utilizada uma ferramenta que permite a padronização da coleta de dados e a comparação dos resultados das variáveis (indicadores de desempenho) integrantes do estudo. As variáveis selecionadas para avaliar o risco de insolvência foram a margem de segurança percentual, a margem líquida de lucro (regime de caixa) em relação à produção e o número de dias para atingir o ponto de equilíbrio. As escalas para mensuração dos níveis do risco de insolvência que permitem a classificação dos laboratórios são estruturadas com base na realidade objetiva do universo pesquisado. Foi feita uma atribuição subjetiva dos graus de risco buscando a adequada representação da realidade dos laboratórios (SANTOS, 2), conforme descrito a seguir. Margem de segurança percentual: Risco alto – valores menores que 10%; risco moderado – valores iguais ou maiores que 10% e menores que 20%; risco baixo – valores iguais ou maiores que 20% e menores que 30%; risco muito baixo – valores iguais ou maiores que 30%. Margem líquida de lucro (regime de caixa) em relação à produção: Risco alto – valores menores que 5%; risco moderado – valores iguais ou maiores que 5% e menores que 10%; risco baixo – valores iguais ou maiores que 10% e menores que 15%; risco muito baixo – valores iguais ou maiores que 15%. Número de dias para atingir o ponto de equilíbrio: Risco muito alto – valores iguais ou maiores que 30; risco alto – valores menores que 30 e iguais ou maiores que 25; risco moderado – valores menores que 25 e iguais ou maiores que 20; risco baixo – valores menores que 20.

Resultados 

As figuras 1, 2 e 3 mostram, respectivamente, o risco de insolvência segundo os critérios da margem de segurança percentual, margem líquida de lucro (regime de caixa) em relação à produção e do número de dias para atingir o ponto de equilíbrio. A figura 4 apresenta as causas mais freqüentes que concorrem para o risco de insolvência. Estas causas são as comuns ao grupo de laboratórios que foi classificado com os níveis de risco alto e muito alto nos três critérios simultaneamente. Este grupo representa 22,58% dos laboratórios pesquisados.

Figura 1: Distribuição percentual dos laboratórios na
escala de risco. Critério: Margem de segurança.

Figura 2: Distribuição percentual dos laboratórios na
escala de risco. Critério: Margem de lucro

Figura 3: Distribuição percentual dos laboratórios na
escala de risco. Critério: Número de dias do
mês para atingir o ponto de equilíbrio.

Figura 4: Causas mais freqüentes para o alto risco
de insolvência


Discussão

Dentre os inúmeros riscos presentes em um empreendimento, o risco da insolvência, sem dúvida, é o mais importante. Os indicadores de vendas, que no caso dos serviços que são consumidos na medida em que são produzidos, representam a produção dos laboratórios, receitas e custos são determinantes para a gestão do risco (DAMODARAN; SANTOS, 1, 2). Estes indicadores, dentre outros, são levados em consideração nos critérios adotados neste estudo e mostram que somente seis variáveis são responsáveis por 80,95% dos resultados. Isto é corroborado pelo Princípio de Pareto onde fica evidente que 20% das causas são responsáveis por 80% dos resultados. A pesquisa mostrou que o valor dos exames, o volume dos financiamentos para capital de 

giro e os custos dos serviços de terceiros, reagentes, mão de obra e aluguéis são vitais para o processo de sobrevivência dos laboratórios. É válido ressaltar que serviços de terceiros aqui considerados, são os enquadrados como custo fixo, portanto, os serviços dos laboratórios de apoio, que são custos variáveis, não pertencem a este grupo. Não ficou evidente neste estudo, se o impacto dos financiamentos para capital de giro é devido somente ao volume ou também aos custos destes. Ainda, o mais importante, não foram identificadas as causas da necessidade destes financiamentos. De que eles são conseqüência? Baixo preço dos exames? Alto custo de produção? Inadimplência? Descontrole dos custos fixos? Ou simplesmente de retiradas sistemáticas dos sócios, acima da capacidade de geração de caixa dos laboratórios? Esta questão é importante, pois a sua solução provavelmente irá mudar a priorização das causas ou o próprio risco da insolvência.

Conclusões

Os resultados mostram que um laboratório em cada grupo de cinco, apresenta risco de insolvência classificado como muito alto ou alto, simultaneamente nos três critérios de avaliação do risco. As principais variáveis comuns a estes laboratórios, que causam a maior repercussão no resultado operacional, são apenas seis: valor dos exames, o volume dos financiamentos para capital de giro e os custos dos serviços de terceiros, reagentes, mão de obra e aluguéis. O item reagentes é decorrente de um contexto maior que em última análise representa a eficiência do parque produtivo. Outro resultado notável é que praticamente um laboratório em cada grupo de três, ou seja, 29,03% atingem o ponto de equilíbrio somente a partir do dia 25 de cada mês. Isto significa que aproximadamente um terço dos laboratórios produz lucros para os acionistas tão somente seis dias por mês. Cada organização apresenta uma realidade, não obstante, as causas dos problemas serem comuns. As maneiras de solucionar, por exemplo, os elevados custos com serviços de terceiros e mão de obra, serão certamente diferentes para cada uma. É fundamental, uma vez identificado e mensurado o risco, que se proponham ações no planejamento estratégico da empresa, mas sobretudo, que estas ações sejam efetivamente implantadas e controlada a eficiência individual. Este certamente é um caminho seguro para a competitividade empresarial.

Referências

1. DAMODARAN, ASWATH. – Gestão estratégica do risco: uma referência para a tomada de riscos empresariais. 1. Ed. Brasileira. Porto Alegre, Editora Bookman, 2009, 384 p. 2. SANTOS, PAULO SÉRGIO MONTEIRO DOS. Gestão de riscos empresariais

1. Ed. São Paulo, Novo Século Editora, 2002, 109 p. 3. DA COSTA FILHO, HUMBERTO FAÇANHA; DA COSTA, ROSA MAYR PRESTES. Cálculo dos custos e análise da rentabilidade em laboratórios clínicos – Modelo Custo Certo. 2. Ed. São Paulo, Editora Eskalab Ltda., 2008, 144p. 4. SANTOS, JOEL JOSÉ DOS. Fundamentos de Custos para Formação do Preço e do Lucro. 5. Ed.,rev.,ampl. E modificada. São Paulo, Editora Atlas, 2005, 185p. 5. BRUNI, ADRIANO LEAL; FAMÁ, RUBENS. Gestão de custos e formação de preços: com aplicações na calculadora HP 12 C e Excel. 3. Ed. São Paulo, Editora Atlas, 2004, 551p. 

6. PIMENTEL, ALEX. Curso de empreendedorismo. 1. Ed. São Paulo, Editora 

Digerati Books, 2008, 128p. 7. OLIVEIRA, ERNANI TADEU. Planejamento financeiro para pequenas 

empresas. 1. Ed. Porto Alegre, SEBRAE/FAURGS, 1997, 36p. 8. ROSA, NEWTON BRAGA. Ponto de Equilíbrio: Análise Gráfica para Planejamento e Monitoramento de Pequenos Negócios. 1. Ed. Porto Alegre, SEBRAE/RS, 2002, 66p. 9. SCHMIDT, PAULO; SANTOS, JOSÉ LUIZ DOS; MARTINS, MARCO ANTONIO. Avaliação de empresas: foco na análise de desempenho para o usuário interno: teoria e prática. 1. Ed. São Paulo, Editora Atlas, 2006, 169p.


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